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Ciência do Treinamento

Diabetes e corrida de rua

Uma revisão sistemática examina a participação de corredores com diabetes em eventos de longa distância, como maratonas e ultramaratonas.

Alexandre Machado

· 5 min de leitura

Diabetes e corrida de rua

Resumo rápido

  • A pesquisa indica que, embora esses atletas enfrentem desafios no controle glicêmico, o uso de monitoramento contínuo de glicose (CGM) e ajustes estratégicos na dose de insulina permitem uma prática segura.

Resumo da Revisão Sistemática: Diabetes Mellitus e Corrida de Longa Distância

Introdução e Objetivos A participação de atletas com diabetes em corridas de longa distância tem crescido significativamente nos últimos anos, impulsionada pelos benefícios fisiológicos do esporte e pelo avanço de tecnologias voltadas ao controle glicêmico. O objetivo desta revisão sistemática, conduzida por Braschler et al. (2026), foi avaliar a prevalência, o desempenho, os métodos de monitoramento da glicose e as estratégias de controle glicêmico em corredores de endurance com diabetes.

Metodologia Os pesquisadores realizaram buscas sistemáticas em diversas bases de dados (como PubMed, Medline Ovid, Scopus, Cochrane, CINAHL e Web of Science) até abril de 2024, realizando uma atualização em maio de 2026 para capturar literaturas publicadas posteriormente. O protocolo do estudo foi devidamente registrado na plataforma PROSPERO. Foram incluídos estudos originais, relatórios e séries de casos em inglês ou alemão que avaliaram corredores com diagnóstico confirmado de diabetes mellitus que participaram de eventos de endurance com distâncias iguais ou superiores à meia-maratona. A busca identificou 656 estudos no total, dos quais 22 preencheram todos os critérios de elegibilidade. A amostra final reuniu dados de 161 participantes, sendo 140 homens (87,0%) e 21 mulheres (13,0%). Dentre esses, 99 eram corredores com diabetes, composto quase em sua totalidade por indivíduos com Diabetes Tipo 1 (99,0%) e apenas um indivíduo com Diabetes Tipo 2 (1,0%).

Controle Glicêmico e Parâmetros de Corrida Em relação ao perfil tecnológico e de tratamento dos atletas com diabetes, 50,0% utilizavam sistemas de monitoramento contínuo de glicose (CGM), 27,2% administravam insulina por meio de bombas de infusão contínua (CSII) e 63,6% utilizavam múltiplas injeções diárias (MDI). A média ponderada da hemoglobina glicada (HbA1c) geral dos atletas participantes foi de 7,4%. Curiosamente, os estudos publicados após 2010 demonstraram um controle glicêmico substancialmente melhor, registrando uma HbA1c média de 6,7% em comparação com os 8,3% obtidos nos estudos anteriores a esse ano. Esse avanço é atribuído principalmente à evolução das tecnologias médicas de controle e monitoramento, como o CGM, bombas de insulina e sistemas de infusão automatizada de insulina (AID).

O tempo no alvo glicêmico (TIR) variou conforme a distância percorrida nas provas, sendo de 40% a 100% para meias-maratonas, 51,6% em maratonas e entre 47% e 73% em ultra-maratonas. Observou-se uma tendência deliberada entre os corredores de manterem uma hiperglicemia moderada durante as competições como estratégia preventiva contra a hipoglicemia. Dessa forma, nenhum caso de hipoglicemia sintomática foi relatado durante a realização das provas analisadas.

Manejo de Insulina e Nutrição Para mitigar o risco de hipoglicemia induzida pelo esforço físico, a estratégia preventiva mais comum adotada pelos atletas foi a redução de 50% a 80% da dose de insulina basal no dia da corrida ou nas 24 horas prévias. Em termos nutricionais, a ingestão de carboidratos variou conforme a extensão da corrida, registrando taxas médias de 12,6 a 39,1 g/h em meias-maratonas e de 25 a 33,9 g/h em maratonas. Contudo, a maioria dos atletas com diabetes não alcançou as recomendações diretrizes de ingestão de carboidratos, que sugerem o consumo de 0,4 a 1,3 g por quilograma de peso corporal por hora para exercícios prolongados, a fim de evitar flutuações glicêmicas indesejadas.

Respostas Fisiológicas e Hipoglicemia Tardia Apesar da ausência de sintomas de hipoglicemia durante as corridas, 27 corredores apresentaram episódios de hipogemia tardia assintomática, que costuma ocorrer entre 6 e 15 horas após o término do esforço vigoroso. Ainda assim, a taxa geral dessa ocorrência pós-prova foi considerada relativamente baixa, oscilando entre 0,7% e 2% nos atletas monitorados, em contraste com taxas mais elevadas vistas em ciclistas profissionais. Fisiologicamente, as respostas dos biomarcadores de estresse hormonal — tais como o aumento do cortisol, hormônio do crescimento (GH), catecolaminas e ACTH — foram similares às apresentadas por grupos de controle saudáveis, evidenciando respostas adaptativas normais para gerir o estresse metabólico. Por outro lado, o marcador de dano muscular esquelético, a creatina quinase (CK), registrou um aumento expressivo de 5,5 a 50,8 vezes logo após o esforço físico, com pico em 24 horas e retorno ao nível basal após sete dias.

Limitações, Recomendações e Conclusão Dentre as limitações metodológicas encontradas na literatura atual, destacam-se o tamanho reduzido das amostras, o provável viés de seleção (pois a maioria dos participantes já possuía excelente controle metabólico inicial), a forte predominância de participantes do sexo masculino (87%) e a quase ausência de dados focados em indivíduos com Diabetes Tipo 2 ou no público feminino. A fim de preencher essas lacunas, recomenda-se que futuras investigações explorem as distinções fisiológicas entre o Diabetes Tipo 1 e o Tipo 2, analisem mais profundamente as nuances hormonais femininas e investiguem os benefícios de desempenho oferecidos pelo CGM para corredores saudáveis.

Em conclusão, com um preparo rigoroso e o apoio de uma equipe multidisciplinar especializada, atletas com diabetes podem participar com segurança de provas de endurance desafiadoras, inclusive ultra-maratonas. A utilização de ferramentas tecnológicas inovadoras, como o monitoramento contínuo da glicose (CGM) em conjunto com bombas de infusão (CSII) ou sistemas automatizados de alça fechada (AID), surge como o meio mais eficiente e seguro para garantir a estabilidade metabólica e evitar episódios extremos de disglicemia no esporte.

Referência

BRASCHLER, Lorin et al. Diabetes Mellitus and Long-Distance Running: A Systematic Review. Sports Medicine - Open, [S. l.], v. 12, art. 111, p. 1-27, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s40798-026-01084-z. Acesso em: 10 ago. 2026.

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