O aquecimento é uma prática universal no esporte, tradicionalmente realizada antes de qualquer atividade física. Apesar de sua ampla utilização, a literatura científica e as práticas de campo sempre apresentaram divergências significativas quanto a definições, estruturas e eficácia de diferentes métodos. Para sanar essa lacuna, o estudo liderado por Boullosa et al. (2026) estabeleceu o primeiro consenso internacional sobre o tema. Utilizando o método Delphi modificado em três rodadas, o estudo reuniu um painel de 23 especialistas de 12 países, os quais avaliaram 122 declarações iniciais divididas em quatro domínios principais: definições/nomenclatura, objetivos/estrutura, exercícios/mecanismos de desempenho, e saúde/prevenção de lesões. O consenso foi atingido com um nível de concordância igual ou superior a 80%, resultando na aprovação de 72 declarações (60% do total).
Principais Pontos do Documento
1. Definições e Nomenclatura Estabelecidas
Conceito de Aquecimento: Definido como uma intervenção preparatória estruturada e intencional, que combina estratégias ativas e passivas para otimizar as respostas fisiológicas e a prontidão global do atleta.
Treino vs. Competição: O consenso diferencia claramente as duas situações. O aquecimento competitivo visa exclusivamente maximizar o desempenho imediato. Já o aquecimento para treino é mais abrangente, permitindo a inclusão de conteúdos pedagógicos, aquisição de novas habilidades e metas de periodização a longo prazo.
Exercícios de Priming e Reaquecimento: O reaquecimento serve para reativar o atleta após um aquecimento inicial quando ocorrem intervalos significativos (como intervalos de jogos ou séries sucessivas). Por outro lado, os exercícios de priming são realizados horas ou dias.
2. Estrutura, Objetivos e Monitoramento
Modelo de Três Camadas: Recomenda-se uma estrutura composta por exercícios gerais (predominantemente aeróbicos para aumentar a temperatura e o metabolismo), específicos (técnicos, táticos e psicológicos) e atividades de condicionamento.
Ferramenta Diagnóstica: O aquecimento assume uma função dupla: além de preparar, serve para monitorar a fadiga e a prontidão do atleta em tempo real (utilizando velocidade de movimento, altura de saltos ou percepção de esforço), orientando o ajuste das cargas do treino principal.
Duração e Flexibilidade: Não há uma duração única e universal. Protocolos curtos duram menos de 5 minutos, os típicos duram entre 15 e 20 minutos, e protocolos longos passam de 20 minutos. A duração ideal é flexível e depende das demandas do esporte, das características individuais do atleta, de fatores contextuais e da carga de trabalho planejada
3. Mecanismos de Desempenho: PAP e PAPE
Potencialização Pós-Ativação (PAP): Refere-se estritamente ao aumento de força muscular (como a taxa de desenvolvimento de força ou torque) provocado por estimulação muscular evocada após contrações voluntárias máximas ou quase máximas.
Aumento de Desempenho Pós-Ativação (PAPE): Refere-se ao ganho prático de performance física (velocidade, potência, resistência) gerado pelas atividades de condicionamento voluntárias de alta intensidade no aquecimento. A magnitude e o tempo do efeito PAPE são altamente individuais e influenciados pelo histórico de treino do atleta, volume, intensidade e período de recuperação.
4. Saúde e Prevenção de Lesões
Efeito Crônico na Redução de Lesões: A inclusão de exercícios preventivos (força, equilíbrio) no aquecimento reduz o risco de lesões a longo prazo (efeito crônico), porém não há evidências que apoiem uma proteção aguda imediata para a sessão seguinte.
Proteção Cardiovascular: Exercícios aeróbicos submáximos no aquecimento de volume e intensidade suficientes reduzem o estresse cardiovascular e o risco de isquemia.
O Papel do Alongamento: O alongamento estático prolongado (>60 segundos por grupo muscular) prejudica a força máxima, sendo preferível o alongamento dinâmico. Além disso, o alongamento não reduz o risco global de lesões; a redução de lesões musculares é acompanhada pelo aumento no risco de lesões ósseas e articulares
ReferênciaBOULLOSA, Daniel et al. International Expert Consensus on Warm-Up Protocols for Athletes: A Delphi Study. International Journal of Sports Physiology and Performance, Champaign, v. 21, n. 1, p. 1-15, jul. 2026. Ahead of Print. DOI: https://doi.org/10.1123/ijspp.2025-0647.